O título não está errado, é isto mesmo!
idiomas da Espanha no plural. Na Espanha não se fala somente espanhol (castelhano), e não estamos falando de dialetos, e sim de outras línguas, ensinadas na escola. São elas:
Panorama legal e escolar:
A Constituição espanhola reconhece o castelhano como língua oficial do Estado e garante que todas as pessoas a conheçam e a possam usar. Ao mesmo tempo, permite que as comunidades autônomas declarem cooficiais as suas línguas próprias.
Na prática, isso cria um modelo plurilíngue: em cada região com língua cooficial, a escola ensina duas línguas curriculares (castelhano + língua própria), com percentuais que variam por etapa e por modelo pedagógico. Documentos públicos, tribunais, TV e sinalização também operam em dupla via. Ou seja, não se trata de “dialetos domésticos”, mas de línguas de ensino, administração e mídia.
Catalão, valenciano e balear: uma mesma língua com nomes regionais
O catalão é cooficial na Catalunha; nas Ilhas Baleares aparece como “balear” (com variedades locais como mallorquí e menorquí); e na Comunidade Valenciana recebe o nome de valenciano. Linguisticamente, são variedades da mesma língua, com pequenas diferenças de pronúncia, vocabulário e ortografia (p. ex., “xiquet”/“nen” para “menino”).
Na escola, há modelos de imersão (quase todas as disciplinas em catalão/valenciano), modelos mistos e linhas com mais castelhano, mas sempre se conclui o ensino obrigatório dominando as duas. A vida cotidiana — TV regional, rádio, jornais, universidades e administração — circula naturalmente em catalão/valenciano ao lado do castelhano.
Galego: parente próximo do português com forte presença institucionalo texto do seu título aqui
O galego, cooficial na Galícia, tem origem comum com o português no antigo galego-português medieval. Por isso, quem fala português reconhece de imediato estruturas e léxico (“camiño”, “falar”, “rapaza”). O sistema educativo galego assegura alfabetização bilíngue, e a língua aparece na administração, nos meios públicos (TVG, rádios), na música e na literatura contemporânea. Há também políticas de normativização e promoção para reforçar o uso social em áreas urbanas, onde o castelhano costuma ser mais dominante.
Basco (euskera): uma singularidade europeia e modelos de imersão
O basco ou euskera, cooficial no País Basco e em parte de Navarra, não é românico — não tem parentesco comprovado com as línguas vizinhas. Por isso, seu aprendizado escolar costuma recorrer a modelos claros de imersão:
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Modelo A: ensino em castelhano com euskera como disciplina;
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Modelo B: várias matérias em ambas as línguas;
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Modelo D: imersão majoritária em euskera.
Nos últimos anos, o Modelo D ganhou força, elevando a competência ativa entre jovens. O euskera está presente em TV, cultura popular, tecnologia (localização de apps) e na administração autonômica, com forte planejamento linguístico para ampliar o uso em ambientes de trabalho e serviços.
Castelhano (espanhol)
O castelhano — também chamado de espanhol — é a língua oficial do Estado em toda a Espanha e a única obrigatória em todas as escolas, inclusive nas regiões com línguas cooficiais. Na prática, funciona como língua comum da administração, da justiça, da mídia nacional e da mobilidade entre comunidades autônomas.
Dentro da própria Espanha, apresenta variação interna: no centro-norte é frequente o som /θ/ para c/z diante de e, i (cena, zapato), enquanto no sul e nas Canárias predomina o seseo (tudo soa como “s”); o yeísmo (igualar ll e y) é hoje majoritário. No tratamento pronominal, mantém-se vosotros para a 2ª pessoa do plural (vosotros habláis), ao contrário da América Hispânica, que prefere ustedes (ustedes hablan). Também há diferenças de uso verbal (maior presença do pretérito perfeito composto he comido em parte do norte, versus indefinido comí no sul) e de vocabulário característico — por exemplo, ordenador (computador), coche (carro), zumo (suco).
Mesmo onde catalão/valenciano, galego, basco ou aranês são cooficiais, os alunos concluem a escolaridade plenamente alfabetizados em castelhano, o que garante a intercompreensão nacional e o papel do espanhol como referência internacional do país.
Aranês: o occitano do Val d’Aran e a proteção em escala local
No Val d’Aran (Pirineus catalães), o aranês — variedade do occitano — é cooficial junto a catalão e castelhano. Embora seja uma comunidade pequena, a língua tem currículo próprio, presença em documentos municipais e valorização identitária. Estudar aranês na escola é parte de manter viva a ponte histórica com o espaço occitânico do sul da França.
Outras línguas reconhecidas: asturiano/astur-leonês e aragonês
O asturiano (também chamado bable, parte do contínuo astur-leonês) e o aragonês são línguas reconhecidas e protegidas em suas regiões, com ensino optativo ou programas específicos, produção literária, meios culturais e políticas de fomento. Não são cooficiais em todo o território das respectivas comunidades, mas contam com estatutos de proteção, normativas ortográficas e presença crescente em contextos escolares e acadêmicos.
Por que isso importa para quem estuda espanhol?
Para aprendizes de espanhol, saber que a Espanha é plurilíngue ajuda a entender variações de vocabulário e sotaque, a presença de topônimos em outra língua (Girona/Gerona; A Coruña/La Coruña; Donostia/San Sebastián) e o contexto cultural em que o castelhano convive com outras línguas de prestígio. Em resumo: falar “idiomas da Espanha”, no plural, é reconhecer um ecossistema linguístico robusto, com línguas plenamente ensinadas na escola e atuantes na esfera pública.